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Fornecedores da Saúde aparecem na origem de recursos da campanha de Beto Preto

Dados do TSE revelam empresários ligados à prestação de serviços de saúde entre doadores originários de dinheiro repassado pelo PSD; um deles mantém contratos com a Funeas desde a época em que Beto comandava a Sesa

Gazeta do Paraná · · 7 min de leitura
Beto Preto
Beto Preto — Crédito: Américo Antonio/Arquivo SESA

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Empresários ligados à prestação de serviços de saúde estão entre os doadores originários dos recursos que o PSD do Paraná repassou à campanha de Beto Preto a deputado federal. Dados oficiais do DivulgaCand, analisados pela Gazeta do Paraná, mostram que a relação inclui o responsável por uma empresa que recebe recursos da Fundação Estatal de Atenção em Saúde do Paraná (Funeas) desde pelo menos 2020, período em que Beto comandava a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), além do sócio-administrador de uma empresa de serviços médicos envolvida em contratação que passou pelo crivo do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR).

Os registros eleitorais não indicam que esses empresários tenham transferido o dinheiro diretamente para a conta de Beto. Eles aparecem como doadores originários de recursos que passaram pelo diretório estadual do PSD e posteriormente foram destinados à candidatura. Também não há, nos documentos analisados, evidência de contrapartida, favorecimento ou ilegalidade nas doações. O interesse público está na trajetória do dinheiro e na relação de alguns de seus originadores com um setor comandado por Beto durante boa parte do primeiro governo Ratinho Junior.

 

R$ 25 mil e contratos com a Funeas

Um dos casos é o de Marcos Vinicius Duarte, identificado no DivulgaCand como doador originário de R$ 25 mil. Ele está ligado à Marcos Vinicius Duarte Obras Ltda., empresa que, apesar de carregar “Obras” na razão social, aparece em documentos públicos prestando serviços assistenciais de saúde à Funeas.

A relação com a estrutura estadual é antiga. Documentos oficiais da fundação registram pagamentos à empresa desde pelo menos 2020, quando Beto Preto já estava à frente da Sesa. Em outubro daquele ano, a Funeas relacionou diferentes pagamentos à companhia. Em 2021, a empresa continuou aparecendo nos registros financeiros e em procedimentos relacionados à prestação de serviços assistenciais no Hospital Regional do Sudoeste.

Beto havia assumido a Secretaria da Saúde em janeiro de 2019, no início do primeiro mandato de Ratinho Junior. A própria empresa de Marcos foi constituída naquele ano. Os documentos localizados pela reportagem não demonstram que Beto tenha participado pessoalmente de sua contratação, determinado seu credenciamento ou autorizado pagamentos específicos.

A relação comercial com a estrutura estadual, entretanto, continuou nos anos seguintes.

Em setembro de 2022, a Funeas celebrou contrato de R$ 462,6 mil com a empresa para prestação de serviços assistenciais no Hospital Regional do Sudoeste. Naquele momento específico, Beto estava afastado da Sesa para disputar as eleições. Ele deixou a pasta em março e retornou depois do pleito.

Mais recentemente, a Funeas prorrogou outro contrato com a empresa. O instrumento, no valor de R$ 92,2 mil, previa serviços assistenciais especializados no Hospital Regional do Sudoeste e teve vigência alcançando 2026.

Assim, a sequência documental atravessa vários anos: a empresa já recebia recursos da Funeas durante a gestão de Beto na Saúde, permaneceu prestando serviços depois de sua saída e, agora, seu responsável aparece entre os doadores originários do dinheiro transferido pelo PSD à campanha do ex-secretário.

 

Healthmed

Outro nome da lista é Paulo Roberto Maciel, com R$ 40 mil, valor superior ao atribuído a Marcos. Documentos do TCE-PR identificam Maciel como sócio-administrador da Healthmed Serviços Médicos Ltda., empresa dedicada à prestação de serviços na área da saúde.

A Healthmed aparece em procedimento do Tribunal de Contas relacionado a uma contratação emergencial realizada pela Prefeitura da Lapa. Em documentação do processo, o TCE solicitou esclarecimentos sobre aspectos da contratação e da habilitação da empresa. Entre os pontos levantados estava um documento apresentado para comprovação de capacidade técnica que fazia referência a CNPJ diferente daquele da empresa contratada.

O procedimento de fiscalização não significa condenação ou comprovação de irregularidade por parte de Maciel ou da Healthmed. Até o momento, a apuração da Gazeta do Paraná também não encontrou contrato da empresa com a Sesa ou com a Funeas que permita estabelecer uma relação semelhante à identificada no caso de Marcos Vinicius Duarte.

Ainda assim, o registro eleitoral coloca R$ 40 mil originados por um empresário do setor de serviços médicos na cadeia financeira que posteriormente resultou no repasse partidário à candidatura de Beto.

 

Saúde soma pelo menos R$ 70 mil

Há ainda um terceiro personagem ligado ao setor. Rafael Rugerio Dutra, que aparece com R$ 5 mil entre os doadores originários, é identificado pela Prefeitura de Dois Vizinhos como chefe da UPA 24 Horas e já exerceu funções na administração municipal da Saúde.

Somados, Paulo Roberto Maciel, Marcos Vinicius Duarte e Rafael Rugerio Dutra respondem por pelo menos R$ 70 mil entre os doadores originários com vínculos profissionais ou empresariais com a área da saúde identificados até agora pela reportagem.

A presença desses nomes chama atenção justamente pela trajetória de Beto Preto. Médico, ele construiu parte relevante de sua carreira política na gestão pública da saúde e comandou a Sesa durante a pandemia de Covid-19.

No caso de Marcos, a relação entre sua empresa e a Funeas remonta justamente a esse período.

 

Dinheiro passou pelo PSD

A forma como os recursos chegaram à candidatura é fundamental para compreender os dados.

Beto declarou R$ 2,39 milhões em receitas eleitorais. Desse total, R$ 1,5 milhão foi transferido pela Direção Nacional do PSD e R$ 850 mil pela Direção Estadual do partido. Outros R$ 40 mil correspondem a duas doações diretas de pessoas físicas, de R$ 20 mil cada.

Ao consultar o detalhamento da transferência de R$ 1,5 milhão da direção nacional, o DivulgaCand não apresenta nomes na seção destinada aos doadores originários. Já no repasse de R$ 850 mil do PSD paranaense, o sistema identifica pessoas físicas na origem dos recursos.

É nessa relação que aparecem Maciel, Duarte e Dutra.

Portanto, não se trata de afirmar que essas pessoas depositaram diretamente R$ 70 mil na conta de Beto. O percurso registrado pela Justiça Eleitoral é outro: os nomes aparecem como originadores de recursos que passaram pela estrutura partidária e chegaram posteriormente à campanha.

 

Contratada milionária também aparece

A lista traz outros personagens com relações com o poder público fora da área da saúde.

O maior valor individual identificado entre os nomes analisados pela reportagem é de Jânio Keilthon Teixeira Costa, com R$ 50 mil. Jânio aparece em registros públicos como sócio-administrador da Cosampa Construções Ltda.

Em 2026, a Cosampa foi contratada pelo DER-PR para concluir a pavimentação da PR-160 entre Imbaú e Reserva. O contrato é de R$ 187,8 milhões.

Outro contrato recente relacionado à empresa e ao DER-PR alcança aproximadamente R$ 121,7 milhões. Os dois instrumentos somam mais de R$ 309 milhões.

Não há evidência de que os contratos tenham qualquer relação com a destinação eleitoral feita por Jânio. O fato documentado é que o sócio-administrador de uma companhia com contratos milionários com o Estado aparece entre os doadores originários dos recursos repassados pelo PSD paranaense à candidatura.

 

Cúpula do governo

Também há dinheiro originado por integrantes do próprio Governo do Paraná.

Natalino Avance de Souza, secretário estadual da Agricultura e do Abastecimento, aparece com R$ 35 mil. Bruno Luis Krevoruczka, diretor-geral da mesma secretaria, aparece com outros R$ 15 mil.

São R$ 50 mil provenientes de dois integrantes da cúpula da mesma pasta estadual antes de os recursos passarem pelo PSD e chegarem à campanha de Beto.

A presença de empresários que mantêm relações comerciais com o poder público e de ocupantes de cargos do governo entre os doadores originários não caracteriza, isoladamente, irregularidade. Ela, porém, permite identificar quem está por trás de parte do financiamento partidário destinado a uma das campanhas mais abastecidas para a Câmara dos Deputados no Paraná.

No caso de Beto Preto, a área que marcou sua passagem pelo Executivo também aparece no mapa do dinheiro eleitoral: entre os nomes na origem dos recursos estão justamente pessoas ligadas à prestação e à administração de serviços de saúde.

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