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Fim da escala 6x1: checagem revela dados imprecisos, número mundial atribuído ao Brasil e estatísticas sem comprovação em discursos no Senado

Levantamento da Gazeta do Paraná confrontou 11 declarações feitas durante a votação da PEC 221/2019 com informações do IBGE, Ministério do Trabalho, OMS, OIT e estudos internacionais; divergências envolvem jornadas, mortes associadas ao excesso de horas e indicadores de saúde.

Ana Zimermann · · 15 min de leitura
Senado Federal aprovou o fim da escala 6x1 em dois turnos, na quarta-feira (14). Durante os debates, parlamentares apresentaram estatísticas sobre jornadas de trabalho, saúde e produtividade, posteriormente analisadas pela Gazeta do Paraná.
Senado Federal aprovou o fim da escala 6x1 em dois turnos, na quarta-feira (14). Durante os debates, parlamentares apresentaram estatísticas sobre jornadas de trabalho, saúde e produtividade, posteriormente analisadas pela Gazeta do Paraná. — Crédito: Jonas Pereira/Senado Federal

A votação do fim da escala 6x1 no Senado Federal, realizada na quarta-feira (14), foi acompanhada de uma série de declarações de parlamentares sobre os efeitos da redução da jornada de trabalho na economia, na saúde pública e na vida dos trabalhadores. Parte dos argumentos apresentados utilizou estatísticas oficiais, estudos internacionais e levantamentos científicos. Entretanto, uma análise realizada pela Gazeta do Paraná identificou informações imprecisas, estimativas apresentadas fora de contexto original e números cuja origem não pôde ser comprovada. 

O levantamento analisou 11 afirmações registradas nas notas taquigráficas da sessão e buscou confrontá-las com documentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Ministério do Trabalho e Emprego, Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e instituições governamentais de outros países. Entre os pontos identificados estão: a utilização de estatísticas sobre jornadas superiores a 40 horas semanais como se representassem automaticamente trabalhadores da escala 6x1, a atribuição ao Brasil de uma estimativa mundial de 745 mil mortes relacionadas a jornadas prolongadas e a divulgação de percentuais sobre estresse e doenças sem identificação das pesquisas originais. As declarações foram classificadas como: verdadeiras, verdadeiras com ressalvas, imprecisas, sem comprovação ou falsas. A classificação considera a correspondência entre a afirmação apresentada e os dados efetivamente disponíveis, sem avaliar o posicionamento político dos parlamentares sobre a proposta. A análise também diferencia informações comprovadamente incorretas daquelas que não puderam ser verificadas por falta de documentação suficiente.

Jornadas superiores a 40 horas significam, necessariamente, escala 6x1?

Declaração: senadora Leany Lemos (PSB-DF)

Classificação: IMPRECISA

Durante o pronunciamento, a senadora Leany Lemos afirmou que um levantamento elaborado pela Consultoria Legislativa do Senado, com dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), identificou 36,2 milhões de vínculos com carteira assinada e jornada contratada superior a 40 horas semanais. Segundo a parlamentar, esse contingente representa aproximadamente 80% dos vínculos celetistas analisados. A partir dessa informação, conclui-se que apenas 20% dos trabalhadores formalizados não estariam submetidos à escala 6x1.

A conclusão apresenta uma imprecisão importante. A quantidade de horas trabalhadas semanalmente não determina, isoladamente, a quantidade de dias trabalhados. Uma jornada de 44 horas pode ser distribuída em seis dias, com cinco jornadas de oito horas e uma de quatro horas, ou em cinco dias, mediante compensação e observadas as regras aplicáveis. Nas duas situações, a carga horária semanal é a mesma, mas apenas uma delas corresponde à escala 6x1.

A Rais reúne informações sobre vínculos empregatícios e jornadas contratuais. Entretanto, o indicador de horas semanais não permite identificar automaticamente como essas horas estão distribuídas entre os dias da semana.

O número de 36,2 milhões mencionado pela senadora ainda depende da conferência do estudo específico da Consultoria Legislativa, cujo inteiro teor não foi obtido nesta apuração. Dessa forma, mesmo que o percentual de vínculos com jornada superior a 40 horas esteja correto, ele não comprova que 80% dos trabalhadores formalizados estejam submetidos à escala 6x1. A distinção é relevante porque também influencia as estimativas sobre o número de pessoas diretamente afetadas pela mudança na organização semanal do trabalho.

Fontes oficiais:

Rais 2025 — Ministério do Trabalho e Emprego:
https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/estatisticas-trabalho/rais/rais-2025

Pnad Contínua — IBGE:
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/17270-pnad-continua.html

Estimativa de 745 mil mortes por acidente vascular cerebral (AVC) e cardiopatias relacionadas a jornadas prolongadas no Brasil? 

Declaração: senador Randolfe Rodrigues (PT-AP)

Classificação: FALSA

Durante o debate, o senador Randolfe Rodrigues afirmou que 745 mil mortes por acidente vascular cerebral (AVC) e cardiopatias no Brasil estavam relacionadas a jornadas prolongadas de trabalho. O número tem origem em uma pesquisa conjunta da Organização Mundial da Saúde e da Organização Internacional do Trabalho, divulgada em maio de 2021. Entretanto, o estudo estimou aproximadamente 745 mil mortes em todo o mundo em 2016, e não exclusivamente no território brasileiro.

Segundo as duas organizações, cerca de 398 mil mortes foram atribuídas a acidentes vasculares cerebrais e outras 347 mil a doenças cardíacas isquêmicas associadas à exposição a jornadas prolongadas. A pesquisa considerou trabalhadores expostos a jornadas de pelo menos 55 horas semanais. Esse detalhe também é relevante: o estudo não investigou especificamente a escala 6x1 brasileira, que pode envolver jornadas de 44 horas por semana.

Os pesquisadores identificaram que trabalhar 55 horas ou mais semanalmente estava associado a um risco 35% maior de AVC e a um risco 17% maior de morte por doença cardíaca isquêmica, em comparação com jornadas de 35 a 40 horas semanais. A pesquisa considerou informações internacionais e apresentou estimativas globais, regionais e nacionais. O total divulgado de 745 mil mortes corresponde à estimativa mundial. Portanto, embora o número citado pelo senador exista em documentação científica oficial, a afirmação de que essas mortes ocorreram no Brasil está incorreta. A atribuição de um total mundial a um único país altera substancialmente a dimensão estatística do fenômeno apresentado.

Fontes oficiais e científicas:

OMS e OIT — Comunicado sobre mortes associadas a jornadas prolongadas:
https://www.who.int/news/item/17-05-2021-long-working-hours-increasing-deaths-from-heart-disease-and-stroke-who-ilo

Estudo científico publicado na revista Environment International:
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8204267/

90% da população mundial sofre de estresse?

Declaração: senador Chico Rodrigues (PSB-RR)

Classificação: SEM COMPROVAÇÃO

O senador Chico Rodrigues afirmou que a Organização Mundial da Saúde considera que 90% da população mundial sofre de estresse e classificaria o problema como uma epidemia do século XXI. A Gazeta do Paraná não localizou publicação científica ou documento institucional da OMS que confirmasse esse percentual para toda a população mundial. A declaração também não apresentou elementos essenciais para a interpretação da estatística, como o período pesquisado, o número de participantes, os países analisados ou a definição de estresse utilizada.

Essas informações são necessárias porque existe diferença entre episódios ocasionais de estresse, exposição contínua a fatores estressantes, sintomas autorrelatados e transtornos diagnosticados por profissionais de saúde. Uma pesquisa que identifica sintomas de estresse em determinado grupo populacional não pode ser automaticamente generalizada para toda a população mundial.

A OMS reconhece a importância dos fatores psicossociais e das condições de trabalho para a saúde, mas esse reconhecimento não comprova, por si só, a estimativa de 90%. Assim, a classificação adotada é sem comprovação. Isso significa que a documentação encontrada não permite confirmar a autoria institucional e o percentual apresentado, e não que tenha sido demonstrada a inexistência de qualquer estudo sobre o assunto.

Fonte institucional:

Organização Mundial da Saúde — Publicações e comunicados:
https://www.who.int/news-room

80% das doenças e consultas têm relação com estresse?

Declaração: senador Chico Rodrigues (PSB-RR)

Classificação: SEM COMPROVAÇÃO 

No mesmo pronunciamento, Chico Rodrigues afirmou que cerca de 80% das doenças e consultas médicas têm alguma relação direta com fatores emocionais e psicossociais, especialmente com o estresse crônico. A afirmação não foi acompanhada da identificação de uma pesquisa científica específica.

O percentual reúne dois indicadores distintos: a ocorrência de doenças e a realização de consultas médicas. Para confirmar o número seria necessário conhecer a população analisada, quais doenças foram consideradas, quais critérios estabeleceram a associação com fatores emocionais e de que forma foi contabilizada a proporção de consultas relacionadas ao estresse. A influência de fatores psicológicos e sociais sobre determinadas condições de saúde é reconhecida na literatura médica. Entretanto, essa relação não autoriza afirmar que 80% de todas as doenças ou atendimentos médicos tenham essa origem. A apuração não encontrou documentação primária suficiente para sustentar a abrangência da estatística apresentada. Dessa forma, a afirmação permanece sem comprovação.

Fonte institucional:

Organização Mundial da Saúde:
https://www.who.int/

Experiência portuguesa apresentou reduções nos indicadores de ansiedade e exaustão?

Declaração: senador Chico Rodrigues (PSB-RR)

Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS

Ao apresentar experiências internacionais de redução da jornada, o senador Chico Rodrigues citou resultados de um projeto-piloto realizado em Portugal. Segundo o parlamentar, a iniciativa registrou redução de 19% em sintomas de exaustão, 21% nos indicadores de ansiedade e 23% nos de fadiga. Também afirmou que 95% das empresas participantes avaliaram positivamente a experiência. Os percentuais correspondem aos resultados divulgados oficialmente pelo governo português.

O projeto começou em junho de 2023 e envolveu 41 empresas privadas, com participação voluntária. De acordo com a avaliação oficial, a média de horas semanais trabalhadas caiu de 39,3 para 34 horas, redução de aproximadamente 13,7%. Além dos indicadores mencionados no Senado, o levantamento apontou redução de 19% em sintomas relacionados à insônia e a problemas de sono. Os resultados, entretanto, precisam ser interpretados dentro dos limites da pesquisa. O projeto envolveu empresas que aceitaram participar voluntariamente e não constitui uma medição representativa de todos os setores econômicos portugueses.

Também existe diferença entre a semana de quatro dias testada em Portugal e o modelo de cinco dias de trabalho e dois de descanso discutido no Brasil. Portanto, os números mencionados pelo senador estão de acordo com os resultados oficiais, mas não comprovam que mudanças semelhantes produziriam os mesmos efeitos em toda a economia brasileira.

Fonte oficial:

Governo de Portugal — Avaliação do projeto-piloto da semana de quatro dias:
https://portugal.gov.pt/gc23/comunicacao/noticias/95-das-empresas-avaliam-positivamente-experiencia-da-semana-de-quatro-dias

Reforma chilena permite concluir que não houve perda de produtividade?

Declaração: senador Chico Rodrigues (PSB-RR)

Classificação: SEM COMPROVAÇÃO

O senador também mencionou o Chile como exemplo de país que reduziu a jornada semanal sem apresentar perdas de produtividade. A legislação chilena efetivamente estabeleceu a redução gradual da jornada ordinária de 45 para 40 horas semanais, por meio da Lei nº 21.561, de 2023. Entretanto, a implementação da mudança ainda está em andamento. O cronograma estabeleceu a redução para 44 horas em abril de 2024, 42 horas em abril de 2026 e 40 horas em abril de 2028. Portanto, em outubro de 2026, o país ainda não havia concluído a transição prevista na legislação.

A existência da reforma está documentalmente comprovada, mas não foi localizado um levantamento oficial conclusivo que demonstre ausência de perdas de produtividade em toda a economia chilena como resultado da redução da jornada. Também seria necessário distinguir o comportamento da produtividade por hora trabalhada, por trabalhador e por setor econômico. Assim, a afirmação sobre os resultados econômicos da reforma permanece sem comprovação suficiente.

Fontes oficiais:

Biblioteca do Congresso Nacional do Chile — Lei nº 21.561:
https://www.bcn.cl/leychile/navegar?idNorma=1191554

Dirección del Trabajo — Informações sobre a redução da jornada:
https://www.dt.gob.cl/portal/1626/w3-propertyname-2556.html

Estimativa de 21 milhões de trabalhadores em sobrejornada?

Declaração: senador Randolfe Rodrigues (PT-AP)

Classificação: SEM COMPROVAÇÃO 

Durante o debate, Randolfe Rodrigues afirmou que aproximadamente 21 milhões de brasileiros, equivalentes a cerca de 20% da população ocupada, enfrentavam sobrejornada de trabalho. Embora o IBGE produza estatísticas sobre o número de pessoas ocupadas e as horas habitualmente trabalhadas, a afirmação não identificou qual definição de sobrejornada foi utilizada para chegar ao total mencionado. O indicador poderia se referir a trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas semanais, superiores a 44 horas ou a pessoas que realizam horas extras de forma habitual. 

Essas situações não são equivalentes. Também não é possível utilizar automaticamente qualquer uma dessas categorias como medida da quantidade de brasileiros submetidos à escala 6x1. A Pnad Contínua permite estudar a distribuição das horas trabalhadas, mas o número específico de 21 milhões não foi vinculado, nesta apuração, à tabela oficial utilizada pelo parlamentar. A ausência dessa identificação impede confirmar o universo e a metodologia da estatística. Por isso, a declaração foi classificada como sem comprovação.

Fonte oficial:

IBGE — Pnad Contínua:
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/17270-pnad-continua.html

Taxa de desemprego de 5,3% foi a menor da história?

Declaração: senador Marcelo Castro (MDB-PI)

Classificação: IMPRECISA

Durante pronunciamento realizado na mesma sessão, o senador Marcelo Castro afirmou que o desemprego brasileiro estava em 5,3%, classificando o percentual como o menor índice da história do país. A primeira parte da afirmação corresponde aos dados oficiais do IBGE. A Pnad Contínua divulgada em 29 de setembro de 2026 registrou taxa de desocupação de 5,3% no trimestre móvel de junho a agosto. Entretanto, o percentual não correspondia ao menor resultado da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012.

Segundo o próprio IBGE, a taxa de desocupação havia atingido 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, resultado inferior ao apresentado pelo senador. Portanto, embora o percentual de 5,3% estivesse correto para o período citado, a caracterização de recorde histórico estava incorreta. A declaração foi classificada como imprecisa por combinar um indicador verdadeiro com uma interpretação equivocada de sua posição na série histórica.

Fontes oficiais:

IBGE — Pnad Contínua, divulgação de agosto de 2026:
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/2067-np-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua/9171-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-mensal.html

IBGE — Taxa de desemprego de 5,1% em dezembro de 2025:
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45758-pnad-continua-taxa-de-desocupacao-e-de-5-1-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-4-no-trimestre-encerrado-em-dezembro

Percentual de 97% na indústria têxtil comprova escala 6x1?

Declaração: senadora Leany Lemos (PSB-DF)

Classificação: IMPRECISA

Ao detalhar os setores que seriam atingidos pela redução da jornada de trabalho, a senadora Leany Lemos afirmou que 97% dos trabalhadores da indústria têxtil enfrentam a escala 6x1. O percentual foi apresentado no contexto de um levantamento sobre vínculos empregatícios com jornadas contratadas superiores a 40 horas semanais. A diferença entre os dois conceitos é fundamental. Mesmo que 97% dos vínculos da indústria têxtil tenham jornada superior a 40 horas semanais, isso não significa necessariamente que todos estejam submetidos a seis dias de trabalho e um de descanso. Parte desses trabalhadores pode cumprir jornadas de 44 horas distribuídas em cinco dias, conforme as regras de compensação e os acordos aplicáveis.

A documentação pública da Rais pode ser utilizada para examinar jornadas contratuais e vínculos por atividade econômica, mas não autoriza a conversão direta desse indicador em uma estimativa de trabalhadores da escala 6x1. Além disso, o percentual exato de 97% depende da conferência do levantamento específico mencionado no discurso. Dessa forma, a afirmação é imprecisa por apresentar um indicador de carga horária como se representasse diretamente a distribuição semanal dos dias trabalhados.

Fonte oficial:

Ministério do Trabalho e Emprego — Rais 2025:
https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/estatisticas-trabalho/rais/rais-2025

5,6 milhões de empregados domésticos no quarto trimestre de 2025, com cerca de 1,5 milhão de carteiras assinadas?

Declaração: senadora Leany Lemos (PSB-DF)

Classificação: SEM COMPROVAÇÃO

A senadora afirmou que o Brasil tinha aproximadamente 5,6 milhões de empregados domésticos no quarto trimestre de 2025, dos quais cerca de 1,5 milhão possuíam carteira assinada. A declaração foi atribuída a dados do IBGE. Entretanto, a apuração não conseguiu confirmar simultaneamente os dois totais na tabela específica da Pnad Contínua referente ao período mencionado.

A checagem exige verificar os contingentes estimados de empregados domésticos com e sem carteira assinada, além dos critérios de arredondamento utilizados. Os números apresentados podem ser confrontados com as tabelas trimestrais da pesquisa, mas, sem a localização do recorte exato, não há documentação suficiente para classificá-los como verdadeiros ou falsos. Por esse motivo, a declaração permanece sem comprovação nesta etapa da apuração.

Fonte oficial:

IBGE — Pnad Contínua Trimestral:
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9173-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-trimestral.html

1,3 milhão de mulheres com deslocamento superior a duas horas?

Declaração: senador Randolfe Rodrigues (PT-AP)

Classificação: SEM COMPROVAÇÃO

O senador Randolfe Rodrigues também afirmou que aproximadamente 1,3 milhão de mulheres levam mais de duas horas para chegar ao trabalho. A declaração não apresentou referência suficiente para identificar o levantamento estatístico que sustenta o número. Uma das dificuldades está na definição do tempo de deslocamento considerado. O indicador pode representar somente o trajeto de ida até o local de trabalho ou o tempo total gasto diariamente entre residência e emprego.

Também é necessário identificar se o universo pesquisado inclui todas as mulheres ocupadas ou somente determinadas regiões, categorias profissionais ou modalidades de transporte. A ausência dessas informações impede confirmar a abrangência e a precisão do total citado. Dessa forma, a declaração foi classificada como sem comprovação, sem que isso represente uma conclusão de falsidade.

Fonte institucional:

IBGE — Pesquisas e indicadores oficiais:
https://www.ibge.gov.br/

O que a checagem revela sobre os números apresentados no Senado

Das 11 declarações examinadas pela Gazeta do Paraná, uma foi classificada como falsa, três como imprecisas, uma como verdadeira com ressalvas e seis como sem comprovação suficiente. A afirmação comprovadamente falsa envolve a apresentação de uma estimativa mundial de mortes como se o total correspondesse exclusivamente ao Brasil. 

As imprecisões identificadas envolvem, principalmente, a utilização de indicadores que medem situações diferentes daquelas descritas pelos parlamentares. O exemplo mais evidente é a associação entre jornadas superiores a 40 horas semanais e a escala 6x1. Embora os dois indicadores possam apresentar sobreposição, não são equivalentes e não permitem estabelecer, isoladamente, a quantidade de trabalhadores submetidos a seis dias consecutivos de trabalho com um dia de descanso.

Já as declarações classificadas como sem comprovação exigem cautela adicional. A ausência de identificação de uma pesquisa original não significa, necessariamente, que a estatística divulgada esteja incorreta, mas impede sua validação independente. Esse problema aparece especialmente nos percentuais sobre estresse e doenças atribuídos a organismos internacionais, assim como nas estimativas sobre deslocamento, trabalho doméstico e sobrejornada.

A análise também identificou uma afirmação sustentada por documentação oficial: os resultados positivos observados no projeto-piloto português de redução da semana de trabalho. Nesse caso, a principal ressalva é que os dados se referem a um experimento específico e não permitem prever automaticamente os efeitos da mesma política em outros países.

O levantamento reforça a necessidade de distinguir dados oficiais, interpretações estatísticas e projeções econômicas durante a discussão de mudanças na legislação trabalhista. A confiabilidade dos números utilizados no debate público depende não apenas da existência de estudos ou bases governamentais, mas também da correta identificação de seus períodos, populações, metodologias e limites de interpretação.

A Gazeta do Paraná ressalta que a checagem foi realizada a partir das declarações registradas na sessão do Senado e dos documentos primários localizados até 15 de outubro de 2026. No caso das estimativas ainda sem comprovação, a eventual apresentação dos estudos originais poderá permitir nova avaliação das classificações.

A íntegra dos pronunciamentos está disponível nas notas taquigráficas oficiais do Senado Federal: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/notas-taquigraficas/-/notas/s/591267

 

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