Das urnas às deepfakes: as principais fake news que abrem o segundo turno das Eleições 2026
Falha na divulgação da apuração, suposta fraude eleitoral, vídeos manipulados de Lula e Flávio Bolsonaro e até contas enganosas sobre votos no Senado estão entre os conteúdos falsos que ganharam espaço nas redes e em grupos de mensagens após o primeiro turno
A campanha para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026 começou acompanhada de uma nova onda de desinformação. Desde a votação de domingo (4), vídeos, imagens, áudios e mensagens que questionam o funcionamento das urnas ou atribuem declarações e atitudes falsas aos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) vêm sendo compartilhados nas redes sociais e em aplicativos de mensagens.
A Gazeta do Paraná fez uma varredura das principais verificações publicadas desde o primeiro turno e encontrou um padrão: acontecimentos reais são frequentemente usados como ponto de partida para conclusões falsas. Foi assim com a interrupção temporária da divulgação dos resultados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com uma mensagem exibida pelo Autoatendimento Eleitoral e até com números verdadeiros da votação para o Senado. Em outros casos, o conteúdo é inteiramente fabricado ou manipulado. Confira as principais desinformações que circulam no início do segundo turno:
- Pausa na divulgação dos resultados foi para promover fraude eleitoral
CLASSIFICAÇÃO: FALSO
Uma das narrativas de maior repercussão depois da eleição afirma que uma interrupção de aproximadamente 50 minutos na atualização nacional dos resultados para presidente seria indício de fraude. A interrupção realmente ocorreu. O que não procede é a conclusão de que ela tenha interferido na contagem dos votos.
Segundo o TSE, a intercorrência ocorreu na geração dos arquivos utilizados para divulgar os resultados na internet e afetou a visualização nacional para presidente e vice. A totalização dos votos continuou funcionando. O ponto central é a diferença entre totalização e divulgação.
Os votos são apurados nas seções eleitorais e registrados nos boletins de urna. A falha atingiu a apresentação dos dados ao público, e não os votos armazenados ou sua totalização. A própria Justiça Eleitoral informou que sua equipe técnica abriu investigação para diagnosticar a causa da intercorrência e evitar repetição no segundo turno. Portanto, é correto afirmar que houve uma falha técnica na divulgação. Não há, porém, evidência de que ela tenha alterado votos ou o resultado do primeiro turno.
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Urnas antigas travaram a contagem?
CLASSIFICAÇÃO: FALSO
A mesma interrupção gerou uma segunda narrativa. Uma imagem difundida nas redes atribuiu o problema às urnas dos modelos UE2013 e UE2015, alegando que equipamentos antigos teriam apresentado erros e travado a contagem.
O TSE desmentiu a informação. Segundo a Justiça Eleitoral, a ocorrência não teve origem nesses equipamentos. O problema atingiu a divulgação nacional dos resultados para presidente e vice, não a apuração realizada pelas urnas. A imagem usada para sustentar a alegação também foi classificada pela Justiça Eleitoral como falsa.
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Soma de votos do PL para o Senado e suposta fraude contra Flávio Bolsonaro
CLASSIFICAÇÃO: ENGANOSO
Uma conta aparentemente simples começou a circular depois do primeiro turno. A mensagem compara os votos recebidos pelos candidatos do PL ao Senado com a votação de Flávio Bolsonaro para presidente e questiona como os candidatos do partido poderiam somar mais votos que o presidenciável. A publicação afirma que “a conta não fecha” e usa a diferença para insinuar fraude.
O raciocínio ignora uma característica fundamental das eleições de 2026: neste ano, cada eleitor pôde votar em dois candidatos ao Senado, porque estavam em disputa duas das três cadeiras de cada estado. Já para presidente, cada eleitor teve apenas um voto. Assim, a quantidade total de votos para o Senado não pode ser comparada diretamente com a quantidade de votos para presidente.
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Lula jogou a bandeira do Brasil no chão?
CLASSIFICAÇÃO: FALSO
Um dos conteúdos de maior alcance identificados na varredura afirma que Lula teria amassado e jogado uma bandeira brasileira no chão depois de votar em São Bernardo do Campo. Um vídeo cortado da cena foi utilizado como suposta prova. Outras imagens, porém, mostram o que aconteceu na sequência: depois de posar para fotografias ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin, Lula entrega a bandeira ao fotógrafo Ricardo Stuckert.
Após a verificação do conteúdo, que, ainda no domingo, já registrava pelo menos 1,9 milhão de visualizações no X, 28 mil compartilhamentos no Facebook e 22 mil curtidas no Instagram, o ministro André Mendonça, do TSE, determinou a remoção de 16 publicações que reproduziam o vídeo falso.
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Vídeo em que Flávio fala em menos direitos trabalhistas
CLASSIFICAÇÃO: FALSO / CONTEÚDO MANIPULADO POR IA
Também ganhou forte circulação um vídeo em que Flávio Bolsonaro supostamente afirma que o trabalhador teria de escolher entre “menos direitos e emprego” ou “todos os direitos e desemprego”. A fala não aparece no vídeo original. As imagens são reais, mas o áudio foi adulterado digitalmente.
Na gravação original, publicada em janeiro, Flávio Bolsonaro falava sobre uma viagem a Israel e sobre sua passagem pelo memorial do Holocausto. As postagens com a versão manipulada acumulavam pelo menos 140 mil interações no X e outras 83 mil nas plataformas da Meta até domingo.
O caso mostra uma tendência particularmente importante para o segundo turno: a utilização de imagens verdadeiras combinadas a vozes artificialmente produzidas para criar declarações inexistentes.
6. Mensagem “Faltou” no site do TSE
CLASSIFICAÇÃO: ENGANOSO
Outra controvérsia começou depois que pessoas que afirmam ter votado encontraram a palavra “Faltou” ao consultar o serviço de justificativa eleitoral do TSE. As capturas de tela são reais. A interpretação de que elas demonstrariam desaparecimento ou não contabilização do voto, porém, não é correta.
Segundo o TSE, os dados de comparecimento, ausência e justificativas do primeiro turno ainda estão sendo processados. O cronograma estabelecido pela Justiça Eleitoral prevê que esse processamento seja concluído até 11 de outubro.
Depois da repercussão, o TSE alterou a mensagem apresentada no serviço para informar que os dados estão “em processamento”. A consulta diz respeito ao registro de comparecimento do eleitor no Cadastro Eleitoral, não à contabilização do voto depositado na urna.
7. Quem não votou no primeiro turno não poderá votar no segundo?
CLASSIFICAÇÃO: FALSO
Nesta quarta-feira (7), outra informação falsa passou a ser verificada: a afirmação de que, quem não compareceu às urnas no primeiro turno, estaria impedido de votar no segundo. Não está. Para a Justiça Eleitoral, cada turno é considerado uma eleição independente. Portanto, o eleitor que faltou no dia 4 pode votar normalmente no dia 25 de outubro, desde que esteja com o título em situação regular. A ausência no primeiro turno precisa ser justificada dentro do prazo estabelecido pela Justiça Eleitoral, mas essa justificativa não é condição prévia para participar do segundo turno.
Desinformação mistura fatos reais e conclusões falsas
A varredura mostra que parte importante da desinformação deste início de segundo turno não depende da fabricação completa de um acontecimento. A interrupção na divulgação dos resultados existiu. A mensagem “Faltou” realmente apareceu no sistema. Houve substituição de urnas com defeito durante a votação. Os números utilizados na comparação entre Senado e Presidência também são apresentados como dados eleitorais.
A desinformação surge quando esses elementos são retirados do contexto ou utilizados para sustentar conclusões que os dados não permitem. Em outros conteúdos, entretanto, a adulteração é direta. É o caso do vídeo manipulado atribuído a Flávio Bolsonaro e do corte usado para afirmar que Lula teria jogado a bandeira brasileira no chão.
O volume de conteúdo problemático também aumentou. O Aos Fatos informou ter encontrado 3.094 publicações classificadas como “de baixa qualidade” entre 27.099 analisadas nos sete dias anteriores à consulta; um crescimento de 124% em relação à semana precedente.
Com a propaganda eleitoral do segundo turno retomando espaço e a disputa presidencial concentrada em apenas dois candidatos, conteúdos falsos ou manipulados tendem a explorar justamente temas de forte apelo emocional: fraude eleitoral, religião, patriotismo, emprego e direitos trabalhistas.
Para o eleitor, a recomendação permanece a mesma: desconfiar de vídeos recortados, áudios sem origem identificada, capturas de tela sem link para a publicação original e mensagens que utilizem números verdadeiros para chegar a conclusões que não aparecem nos dados oficiais.
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