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Checagem: Áudio de Vorcaro sobre R$ 30 milhões para filme de Lula é questionado; Polícia Federal nega delação e cineasta desmente repasse

Após primeira checagem da Gazeta do Paraná, novas manifestações da PF, da defesa do ex-banqueiro e dos responsáveis pelo documentário ampliam as dúvidas sobre a denúncia divulgada pela Veja; origem e integridade da gravação ainda não foram esclarecidas

Ana Zimermann · · 7 min de leitura
Checagem: Áudio de Vorcaro sobre R$ 30 milhões para filme de Lula é questionado; Polícia Federal nega delação e cineasta desmente repasse
— Crédito: Divulgação/Banco Master

A denúncia de que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria repassado R$ 30 milhões em dinheiro vivo para financiar um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhou novos desdobramentos após a primeira checagem publicada pela Gazeta do Paraná, na tarde de sexta-feira (9). A Polícia Federal divulgou uma negativa formal sobre o suposto depoimento, integrantes da Procuradoria-Geral da República (PGR) contestaram a existência de documentos sobre o episódio e a equipe do cineasta Oliver Stone negou ter recebido recursos do ex-controlador do Banco Master. As informações publicadas até a manhã deste sábado (10) também levantam questionamentos sobre a origem de uma gravação divulgada pela revista Veja. 

Enquanto um advogado reconheceu a voz de Vorcaro no áudio, outro representante jurídico não reconheceu a autenticidade do material. Nenhuma perícia pública apresentada até agora permite estabelecer se a gravação está íntegra, quando foi produzida ou em quais circunstâncias. O resultado da nova checagem é que a acusação de pagamento permanece sem comprovação pública. Ao mesmo tempo, a inexistência de um depoimento formal sobre o assunto está sustentada por manifestação expressa da Polícia Federal.

Polícia Federal nega depoimento e entrega de documentos

A primeira informação decisiva veio da própria Polícia Federal, que divulgou uma nota em 9 de outubro negando a existência do depoimento descrito na reportagem da Veja. Segundo o esclarecimento reproduzido pela Agência Brasil, Vorcaro não prestou depoimento com o conteúdo publicado nem entregou à instituição anexos ou documentos que sustentassem aquela narrativa. A negativa tem uma consequência importante: não é correto apresentar o áudio divulgado pela revista como trecho comprovadamente integrante de uma delação premiada formalizada perante a PF. As propostas de colaboração apresentadas pela defesa do ex-banqueiro não foram acolhidas pelas autoridades. Portanto, também não existe acordo de colaboração premiada homologado que confirme a acusação.

CONFIRMADO — A PF nega a existência do depoimento e da documentação descritos na reportagem.

Áudio pode ser verdadeiro, mas origem e integridade não estão comprovadas

A revista Veja divulgou um trecho de áudio atribuído a Vorcaro no qual ele afirma ter colocado dinheiro em um filme sobre Lula e sugere que o repasse teria ocorrido de maneira irregular. Entretanto, a gravação divulgada não apresenta, por si só, comprovantes de transferência, identificação verificável de destinatários, registros contábeis ou documentação bancária que demonstre o pagamento de R$ 30 milhões. 

A Agência Estado informou que o advogado Daniel Bialski reconheceu a voz de Vorcaro na gravação, mas declarou desconhecer as circunstâncias em que ela foi produzida. Já o advogado Sérgio Leonardo, que acompanhou as negociações de colaboração, não reconheceu a autenticidade do material divulgado. A distinção é fundamental: reconhecer uma voz não significa atestar que a gravação está completa, que não sofreu edições ou que seu conteúdo corresponde a fatos efetivamente ocorridos. Fontes ouvidas pela CNN Brasil levantaram a hipótese de uma gravação clandestina. A suspeita, porém, não constitui conclusão de investigação ou perícia.

NÃO COMPROVADO — Não há autenticação pericial pública da gravação nem comprovação de sua origem.

Documentos de delação fazem referência genérica a filmes, mas não comprovam os R$ 30 milhões

A análise dos documentos relacionados às propostas de colaboração revela uma diferença importante entre o conteúdo efetivamente relatado e a acusação divulgada. Segundo informações publicadas pelo UOL e pela Agência Estado, uma das propostas apresentadas pela defesa de Vorcaro menciona genericamente patrocínios a produções audiovisuais relacionadas a Lula e ao ex-presidente Michel Temer. Essa referência aparece no contexto de um anexo relacionado ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Contudo, o trecho não apresenta a descrição de um pagamento de R$ 30 milhões em espécie para o documentário de Oliver Stone, nem demonstra a existência de um esquema de contrapartidas políticas. A reportagem da Veja sustenta que existiriam informações adicionais sobre esse suposto financiamento, mas a PF e integrantes da PGR negam que o conteúdo descrito tenha integrado as propostas formalmente apresentadas.

PARCIALMENTE CONFIRMADO — Há referência genérica a patrocínios de filmes, mas não comprovação do pagamento específico de R$ 30 milhões.

Oliver Stone nega ter recebido dinheiro de Vorcaro

Uma das atualizações mais relevantes surgiu da manifestação da equipe responsável pelo documentário Lula, lançado em 2024 e dirigido por Oliver Stone e Rob Wilson. Em declaração publicada pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, os responsáveis pela produção negaram ter recebido recursos, investimentos, patrocínios ou contribuições de Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de empresas e fundos relacionados ao ex-banqueiro. A equipe informou ainda que Stone não conhecia Vorcaro e não tinha conhecimento de negociações envolvendo o financiamento da obra no Brasil. A negativa já havia sido apresentada em maio, quando surgiram as primeiras especulações sobre um possível patrocínio.

Essa manifestação contradiz a versão de que o banqueiro teria financiado diretamente o documentário. Entretanto, por rigor jornalístico, a declaração dos produtores não deve ser tratada como prova definitiva da inexistência de qualquer operação financeira indireta. Para esclarecer completamente a questão, seriam necessários registros verificáveis dos supostos pagamentos e de seus beneficiários.

CONFIRMADO — A equipe do documentário nega o recebimento. O suposto repasse continua não comprovado.

Suspeita de montagem e uso eleitoral motiva pedido de perícia

A divulgação do áudio a pouco mais de duas semanas do segundo turno das eleições presidenciais provocou questionamentos sobre sua procedência. O grupo de juristas Prerrogativas solicitou à Polícia Federal uma análise pericial da gravação, levantando suspeitas de eventual montagem de trechos ou utilização de inteligência artificial. A entidade também questionou a ausência de informações públicas sobre a data, o local e as circunstâncias em que o áudio teria sido registrado. É necessário distinguir, porém, a existência de um pedido de perícia da comprovação de uma fraude. Até o momento, não foi identificado laudo público que demonstre adulteração, síntese de voz ou montagem. Também não há confirmação pericial pública da integridade do arquivo divulgado.

EM APURAÇÃO — Existem questionamentos sobre a autenticidade, mas não conclusão técnica pública.

AGU anuncia pedido de direito de resposta e campanha de Lula aciona autoridades

A Advocacia-Geral da União anunciou que pediria à revista Veja direito de resposta e correção das informações, considerando que a publicação continha alegações apontadas como inverídicas e ofensivas a autoridades federais. A campanha de Lula, por sua vez, contestou a denúncia e anunciou providências junto à Polícia Federal e à Justiça, atribuindo finalidade eleitoral à divulgação do material.

Essas iniciativas são manifestações e medidas anunciadas pelos envolvidos. Não constituem, isoladamente, prova de que a gravação seja falsa ou de que tenha ocorrido crime eleitoral. Também não foi possível confirmar, até o fechamento desta checagem, eventual decisão judicial sobre os pedidos.

CONFIRMADO — Houve anúncios de providências. Seus resultados ainda dependem de confirmação.

O que efetivamente está comprovado?

A segunda checagem da Gazeta do Paraná permite separar três questões que passaram a ser tratadas como se fossem uma única denúncia:

A primeira é a existência de uma gravação atribuída a Vorcaro. O áudio foi divulgado, mas sua origem e integridade ainda não foram esclarecidas por perícia pública.

A segunda é a alegação de que o ex-banqueiro teria prestado depoimento formal ou apresentado documentos sobre o pagamento. Essa versão foi expressamente contestada pela Polícia Federal e por integrantes da PGR.

A terceira é o suposto repasse de R$ 30 milhões ao documentário de Lula. Não foram apresentados comprovantes públicos que demonstrem a transferência, enquanto os responsáveis pela produção negam o recebimento.

Portanto, não há base documental pública suficiente para afirmar que Daniel Vorcaro entregou R$ 30 milhões a Lula ou que esse valor tenha sido destinado ao financiamento do documentário. Isso não equivale a afirmar que todas as hipóteses tenham sido definitivamente descartadas. Significa que a acusação, até agora, não ultrapassou o estágio de alegação não comprovada. A Gazeta do Paraná continuará acompanhando eventuais perícias, documentos oficiais e manifestações dos envolvidos para atualizar a checagem sempre que surgirem elementos verificáveis.

 

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