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Campanha de Lula pressiona Globo por checagem ao vivo; histórico de declarações sem provas reforça debate

Pedido do PT mobiliza agências de verificação, jornalistas e mais de um milhão de assinaturas nas redes sociais; checagens da Gazeta do Paraná mostram que Lula e Flávio Bolsonaro fizeram afirmações sem comprovação durante a campanha

Ana Zimermann · · 7 min de leitura
Lula e Flávio Bolsonaro durante o primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado pela TV Bandeirantes em 18 de outubro; declarações dos dois candidatos foram alvo de verificações jornalísticas.
Lula e Flávio Bolsonaro durante o primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado pela TV Bandeirantes em 18 de outubro; declarações dos dois candidatos foram alvo de verificações jornalísticas. — Crédito: Renato Pizzutto/Band

A três dias do segundo turno da eleição presidencial, o último debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se transformou também em uma disputa sobre a veracidade das informações apresentadas aos eleitores. A campanha do presidente pediu à TV Globo a realização de checagens de fatos em tempo real durante o confronto marcado para sexta-feira (23). A iniciativa ganhou apoio de organizações jornalísticas e provocou uma mobilização nas redes sociais, com um abaixo-assinado que ultrapassou um milhão de adesões. A proposta, no entanto, ainda enfrenta uma questão decisiva: a Globo não confirmou publicamente que fará a verificação das declarações dos candidatos durante a transmissão televisiva. Enquanto a emissora avalia o formato, agências independentes e entidades ligadas ao jornalismo organizam suas próprias coberturas para acompanhar o debate.

Pedido começou após debate da Band

A discussão ganhou força depois do confronto promovido pela TV Bandeirantes, no domingo (18), marcado por acusações recíprocas, divergências sobre indicadores econômicos e denúncias envolvendo os dois candidatos. Na segunda-feira (19), a direção do PT começou a preparar uma solicitação para que a Globo incorporasse mecanismos de checagem durante o debate. A articulação foi atribuída ao presidente nacional do partido, Edinho Silva, e confirmada posteriormente por integrantes da coordenação da campanha. Na terça-feira (20), o senador Camilo Santana (PT-CE), coordenador político da campanha de Lula, confirmou que a equipe negociava com a emissora. Segundo ele, a verificação seria necessária para evitar que declarações incorretas permanecessem sem contestação durante o programa.

A movimentação avançou na quarta-feira (21), quando Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação Social e estrategista da campanha petista, informou que mantinha conversas com a Globo e organizações independentes de checagem. Segundo Sidônio, havia disposição da emissora para discutir a proposta. Uma das possibilidades seria publicar as verificações no portal g1, simultaneamente ao debate, sem necessariamente inserir os resultados na transmissão da televisão aberta. O ministro também informou que havia contatos com: Aos Fatos, ICL e outras organizações. A declaração, entretanto, não equivale a uma confirmação de participação dessas entidades em um projeto coordenado pela Globo.

Lupa propõe força-tarefa para verificar os candidatos

A discussão deixou de se limitar à campanha presidencial. Nesta quinta-feira (22), a Agência Lupa apresentou uma proposta à TV Globo e à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) para organizar uma força-tarefa de checagem em tempo real. A iniciativa prevê a colaboração de profissionais especializados na verificação de informações, com o objetivo de identificar declarações falsas, dados distorcidos e afirmações que necessitem de contextualização. A Lupa informou que, independentemente de um acordo com a emissora, realizará sua própria cobertura de checagem nas plataformas digitais, seguindo uma prática adotada pela agência desde 2015. Até a apuração desta quinta-feira, não havia confirmação de que a Globo tivesse aceitado a proposta.

Federação de jornalistas prepara transmissão paralela

Outra iniciativa anunciada envolve a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em parceria com a Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), a Intercom e a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). As entidades organizam uma rede de verificação para acompanhar as declarações de Lula e Flávio Bolsonaro durante o debate, previsto para às 21h20 de sexta-feira. A proposta é divulgar os resultados simultaneamente pelos canais no YouTube, sem depender de autorização ou integração com a transmissão da Globo. Dessa forma, mesmo que a emissora não incorpore a checagem à programação, os espectadores poderão recorrer a uma cobertura paralela para consultar as informações verificadas.

Pressão nas redes ultrapassa um milhão de assinaturas

A mobilização pela checagem também ganhou dimensão nas redes sociais. Um abaixo-assinado criado por Rafael Brito na plataforma Change.org passou de 312 mil assinaturas na terça-feira (20) para mais de 954 mil até o fim da tarde de quarta-feira (21). Na noite do mesmo dia, a campanha já havia ultrapassado um milhão de adesões. O documento pede que a Globo esclareça informações incorretas ou distorcidas durante a transmissão, para que os eleitores não dependam exclusivamente das verificações publicadas depois do confronto.

Outra petição, organizada por integrantes da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), reunia mais de 12,5 mil assinaturas na quarta-feira. A proposta vai além da checagem: defende advertências aos candidatos que apresentarem informações falsas e a possibilidade de perda de tempo de fala em caso de reincidência. A repercussão evidencia uma cobrança por maior responsabilidade das emissoras na identificação de informações falsas. Entretanto, o número de assinaturas não representa uma pesquisa de opinião e não permite concluir que a proposta tenha apoio majoritário entre os eleitores.

Checagem também poderia expor declarações de Lula

Embora a iniciativa tenha partido da campanha petista, uma verificação independente precisaria submeter os dois candidatos aos mesmos critérios. Esse aspecto foi destacado pelo editor de Política da revista Veja, José Benedito da Silva, que avaliou que o mecanismo também poderia produzir correções públicas de declarações de Lula. Para o jornalista, a sucessão de acusações durante os debates representa uma dificuldade técnica para a checagem imediata. A preocupação encontra respaldo nas verificações já publicadas sobre o confronto da Band. A Agência Lupa, por exemplo, identificou problemas em declarações dos dois presidenciáveis, incluindo uma afirmação de Lula sobre o Produto Interno Bruto (PIB) e outra de Flávio Bolsonaro sobre gastos com viagens da Presidência. As verificações demonstram que a existência de informações incorretas não se limita a um dos participantes, embora o número e a gravidade das afirmações contestadas possam variar conforme a amostra e os critérios utilizados por cada agência.

Checagens da Gazeta revelam acusações sem provas dos dois candidatos

O histórico de verificações realizadas pela Gazeta do Paraná ao longo da campanha revela que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro têm recorrido a afirmações sem comprovação suficiente, além de números imprecisos e informações apresentadas fora de contexto. Na entrevista de Lula ao SBT, por exemplo, o presidente afirmou que o adversário havia mentido 43 vezes sobre o banqueiro Daniel Vorcaro, mas não apresentou a relação das supostas mentiras nem documentos que sustentassem a quantidade mencionada. Também fez acusações envolvendo possíveis ligações de Flávio com milícias sem apresentar provas suficientes para estabelecer a responsabilidade criminal atribuída ao adversário. Já Flávio, durante a entrevista ao Jornal Nacional, afirmou que Vorcaro teria destinado R$ 30 milhões a uma produção audiovisual sobre Lula, acusação que não encontrou sustentação nos documentos públicos examinados. A mesma alegação voltou a aparecer no debate da Band, novamente sem comprovação. Outras verificações identificaram exageros sobre o Orçamento da União, interpretações distorcidas de indicadores econômicos e atribuições equivocadas de responsabilidades governamentais. 

O balanço evidencia que a circulação de declarações não comprovadas não é exclusividade de uma candidatura e reforça a importância de uma checagem independente, simultânea e submetida aos mesmos critérios para os dois presidenciáveis. As reportagens consultadas selecionaram declarações de maior relevância jornalística e não necessariamente analisaram o mesmo número de afirmações de cada candidato. Por isso, não é possível concluir, a partir delas, quem mentiu mais ou estabelecer uma equivalência quantitativa entre as candidaturas. Além disso, a classificação sem comprovação significa que não foram encontradas evidências suficientes para confirmar uma alegação, e não que ela tenha sido necessariamente demonstrada como falsa.

O desafio de conferir informações durante a transmissão

A principal dificuldade está na diferença entre identificar uma afirmação suspeita e comprovar, com segurança, que ela é falsa. Dados econômicos, estatísticas oficiais e registros de votações legislativas podem ser confrontados rapidamente quando as fontes estão previamente organizadas. Já acusações sobre corrupção, investigações sigilosas ou relações pessoais exigem uma apuração mais cuidadosa. A checagem em tempo real também não significa, necessariamente, que todas as declarações serão verificadas imediatamente. Uma informação sem documentação suficiente pode permanecer sem classificação até que a equipe conclua a investigação.

O debate será realizado na sexta-feira (23), dois dias antes da votação do segundo turno, marcada para domingo (25). Além da disputa entre os candidatos, o encontro poderá colocar em evidência uma questão mais ampla para o jornalismo eleitoral: se a correção de informações falsas deve ocorrer apenas depois que os candidatos deixam o estúdio ou se as emissoras também devem oferecer esclarecimentos durante a transmissão. A resposta da Globo sobre o formato de checagem ainda é aguardada.

 

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