Após ataque a CMEI, vereadores cobram segurança permanente nas escolas de Curitiba e divergem sobre atuação da Prefeitura
Caso em que 13 crianças foram feitas reféns no bairro São Braz motivou pedidos de vigilância, críticas à estrutura das unidades e defesa das medidas adotadas pelo município
A invasão do Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) São Braz, em Curitiba, na última sexta-feira (9), quando 13 crianças foram feitas reféns por um homem armado, provocou cobranças por reforço na segurança das unidades de ensino e divergências entre vereadores sobre a atuação da Prefeitura. Durante a sessão da Câmara Municipal desta terça-feira (13), parlamentares defenderam a presença permanente de guardas municipais nas escolas, a contratação de vigilância privada e a adoção de medidas para prevenir novos episódios de violência.
O vereador Nori Seto, que acompanhou o acolhimento das famílias na Escola Municipal Júlio Moreira durante a operação policial, relatou a angústia dos pais enquanto aguardavam informações sobre os filhos. Segundo ele, a prioridade deve ser garantir que as unidades de ensino tenham condições de impedir situações semelhantes.
“Não podemos depender da coragem de uma professora para compensar aquilo que precisamos melhorar na proteção de uma escola, na proteção de um CMEI”, afirmou.
Seto destacou a atuação da direção e das professoras do CMEI São Braz, responsáveis por retirar outras crianças em segurança, e elogiou o trabalho das forças policiais, do Corpo de Bombeiros e dos profissionais envolvidos no atendimento às famílias.
O vereador também defendeu a presença fixa da Guarda Municipal nas unidades escolares, uma reivindicação que, segundo ele, foi apresentada pelos familiares após a ocorrência.
“Precisamos também responder ao apelo dos pais pela presença de guardas municipais de forma fixa nas escolas e CMEIs”, declarou.
Proposta de segurança privada foi apresentada em 2023
Durante o pronunciamento, Nori Seto afirmou que já havia defendido, em 2023, a contratação de vigilantes privados para reforçar a segurança das escolas municipais enquanto o efetivo da Guarda Municipal fosse insuficiente para atender toda a rede.
“Em 2023, numa reunião da Comissão de Educação dessa Casa, eu sugeri que a Prefeitura Municipal contratasse seguranças particulares, seguranças privadas, enquanto o efetivo da Guarda Municipal não fosse suficiente para atender a essas demandas”, recordou.
Segundo o parlamentar, a proposta encontrou resistência de outros vereadores e não avançou. Diante do episódio no CMEI São Braz, ele voltou a defender a discussão de alternativas imediatas.
“A criança está na escola hoje, a proteção dela não pode ficar para depois”, afirmou.
Seto anunciou ainda que pretende recriar a Frente Parlamentar de Segurança e Infraestrutura das Escolas, que funcionou na legislatura anterior e realizou visitas a unidades da rede municipal. Para formalizar a iniciativa, será necessário reunir a adesão de pelo menos 13 vereadores.
“Vamos precisar de 13 vereadores que se engajem nessa frente. Estão todos convidados, independentemente de ideologia, independentemente de partido político”, declarou.
Vereador aponta histórico de ameaças contra profissionais
O vereador Matheus Henrique apresentou uma avaliação mais crítica sobre as condições de segurança da rede municipal. Segundo ele, a invasão do CMEI São Braz representa o agravamento de um problema que já vinha sendo relatado por profissionais da educação.
“Semanalmente, inclusive, nós temos sido atingidos por agressões verbais, psicológicas, físicas, que têm sido denunciadas pelos funcionários, servidores e servidoras da rede de educação da nossa cidade”, afirmou.
O parlamentar citou uma situação anterior envolvendo o CMEI Rita Ana de Cássia, onde, segundo seu relato, uma acusação falsa de abuso contra crianças teria provocado ameaças contra trabalhadores e uma tentativa de invasão.
“Mensagens de ódio circularam em grupos de WhatsApp, nas redes sociais, com ameaças de morte e pedidos de justiça com as próprias mãos, sem nenhum tipo de prova”, declarou.
Matheus Henrique afirmou que as forças de segurança precisaram intervir para impedir a entrada de pessoas na unidade e evitar agressões aos servidores. O episódio foi apresentado pelo vereador como exemplo de que os riscos enfrentados pelas instituições de ensino não se restringem à ocorrência da última sexta-feira.
“Não são casos isolados esses dois que eu mencionei aqui. Nós recebemos, enquanto vereadores e vereadoras, com muita frequência, professores, professoras, educadores, funcionários de escola, que têm sido vítimas de agressão dentro das unidades”, afirmou.
O parlamentar também responsabilizou a administração municipal pela segurança das instituições e declarou que a Prefeitura já teria recebido alertas sobre problemas estruturais, inclusive no CMEI São Braz.
“A segurança dessas unidades segue sendo responsabilidade direta da Prefeitura de Curitiba, que há anos, inclusive, tem sido notificada sobre a falta de segurança nas unidades, especialmente nessa da sexta-feira, que o muro, inclusive, é muito baixo”, disse.
A afirmação sobre notificações anteriores não foi acompanhada de documentação durante a sessão e depende de confirmação junto ao município.
Para Matheus Henrique, a resposta à violência também deve envolver investimentos em infraestrutura, valorização dos profissionais da educação e enfrentamento à circulação de discursos de ódio.
Serginho do Posto defende resposta da Prefeitura
Em contraponto às críticas, o vereador Serginho do Posto (PSD) defendeu a atuação da administração municipal e das forças de segurança durante a invasão do CMEI São Braz.
Segundo ele, as equipes responsáveis adotaram medidas adequadas diante de uma situação excepcional. O parlamentar também destacou o programa Conhecer para Prevenir, desenvolvido na rede municipal, como um dos fatores que contribuíram para a retirada de crianças e profissionais da unidade.
“O Conhecer para Prevenir é um programa que colaborou muito na evacuação das crianças naquele momento tenso”, afirmou.
Serginho do Posto classificou a ocorrência como um caso isolado e argumentou que a Prefeitura já estava mobilizada para avaliar novas medidas de proteção.
“É importante frisar que as providências e ações estão sendo tomadas”, declarou.
Durante o pronunciamento, informou que o prefeito Eduardo Pimentel se reuniria com os secretários envolvidos para discutir ações de prevenção.
“Hoje o prefeito estará reunido com os secretários envolvidos nas pastas e com a administração para que futuras ações sejam tomadas”, disse.
O vereador também afirmou que as crianças, os professores e os demais envolvidos na ocorrência estavam recebendo acompanhamento psicológico.
A defesa da administração feita por Serginho contrastou com a avaliação de Matheus Henrique, que rejeitou a classificação de caso isolado e cobrou uma resposta mais ampla aos relatos de violência contra servidores.
Projeto prevê controle de acesso e câmeras nos CMEIs
Além das manifestações em plenário, a sessão registrou a apresentação de uma proposta legislativa voltada especificamente à segurança dos centros municipais de educação infantil.
O projeto nº 005.360/2026, apresentado pelo vereador Renan Sesquim, estabelece diretrizes para o fortalecimento da segurança nos CMEIs por meio de mecanismos de controle de acesso e videomonitoramento.
A proposta ainda deverá cumprir as etapas de tramitação na Câmara Municipal. Sua apresentação não significa que os equipamentos tenham sido aprovados ou que exista decisão da Prefeitura sobre a instalação nas unidades.
O debate também evidenciou a preocupação com os efeitos psicológicos da ocorrência sobre crianças, familiares e profissionais da educação.
Nori Seto ressaltou que o encerramento da operação policial não representa o fim das consequências para quem vivenciou a situação.
“O fim da ocorrência não encerra o sofrimento de quem passou por ela. Crianças, familiares e profissionais precisam de acompanhamento”, afirmou.
Ao encerrar o pronunciamento, o vereador defendeu que a mobilização demonstrada durante o resgate seja acompanhada por decisões concretas do poder público.
“Que a coragem de quem protegeu as nossas crianças encontre nessa Câmara e na Prefeitura a mesma coragem para tomar decisões”, declarou.
As propostas de reforço da vigilância, instalação de equipamentos e recriação da frente parlamentar ainda dependem de encaminhamentos. Até o encerramento do debate, não havia sido anunciada na sessão uma decisão da Prefeitura sobre a presença permanente de guardas municipais em todas as unidades escolares.
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